Tendo começado as 8h00 da manhã, segundo o horário oficial do Cairo (GMT +2), as primeiras eleições do Egito foram encerradas com atrasos em todo o país. Porém, ao contrário do que se poderia esperar em termos de denúncias de corrupção, violência e obscuridade eleitoral, desta vez os atrasos no planejamento aconteceram em consequência da enorme quantidade de eleitores inscritos. Em vários casos, é verdade, os atrasos também aconteceram por causa de pequenos problemas administrativos de logística.
Ainda que as eleições de hoje (28/11) não representem um grande passo em termos de mudanças imediatas na governança nacional, certamente têm uma importância enorme para a história democrática do Egito. E para definir somente a distribuição dos partidos da Câmara Baixa do Parlamento, os egípcios já se mostraram unidos para escrever o futuro do país. Vale lembrar, no entanto, que as principais decisões referentes à política externa e à segurança nacional continuarão sendo tomadas pela Junta Militar até, se tudo der certo, junho de 2012.
De maneira nenhuma eu pretendo soar pessimista em relação à política egípcia, ou algo do tipo. Muito pelo contrário, acredito que os egípcios demonstraram ao mundo duas vezes só neste ano que merecem realmente participar da vida política do país. Aliás, quando em outras oportunidades eu critiquei o rumo que a revolução do Egito estava tomando, acho que a população daquele país se sentia exatamente da mesma forma que eu.
Mas volto a defender: a junta militar do Egito precisa respeitar a datas das próximas eleições e aceitar qualquer que seja a vontade do povo egípcio. Mais ainda, talvez o melhor seja que os militares só participem das próximas eleições como observadores e mantenedores da ordem. Caso tentem postergar sua saída do governo, ou mesmo colocar alguém de sua confiança no poder, o mais provável é que os egípcios não desistam, voltem à Praça da Libertação (Tahrir) e deem mais um show de democracia e participação popular.
Para hoje, o esperado é que o partido da Irmandade Muçulmana saia ganhador. Considerando que será esse parlamento o responsável por redigir a nova Constituição do país, uma decisão deste tipo pode ter uma série de impactos históricos para toda a região. Uma possível (e provável) direção a ser seguida pela nova formação é afastar o Egito relativamente do secularismo e do ocidente. Apesar de serem classificados como islâmicos moderados, assim como todas as suas outras homólogas no mundo árabe, a versão egípcia da Irmandade Muçulmana defende a maior aplicação da Sharia no sistema jurídico nacional e a volta de alguns valores tradicionais islâmicos.
Difícil é prever o que deve acontecer em 2012 e 2013, quando o cenário político no Egito já estiver mais estabilizado. Diferente da Líbia, onde o Estado também está controlado por islâmicos moderados, no Egito as mulheres já vivem uma situação em que elas disfrutam de mais direitos. E estabelecendo uma comparação com todas as movimentações pós Primavera-Árabe, podemos reparar num crescimento do Islã moderado na pólitica de todo o mundo árabe. No entanto, seguindo uma linha mais simpática, no exemplo das eleições da Tunísia o partido islâmico procurou o maior partido secularista para formar alianças políticas.
Caso o mesmo não ocorra no Egito, a probabilidade de acontecerem retrocessos democráticos relativos à (por exemplo) igualdade de gêneros naquele país são grandes. Alguns acidentais mais radicais (anti-Islã), por sinal, já especulam sobre a possibilidade de o Egito seguir o modelo e o pensamento político iraniano... Pelas características locais, no entanto, isto já é uma opção bastante remota e uma afirmativa altamente falaciosa.
O fato é: o futuro parlamento do Egito não terá poderes para governar o país, mas terá o papel estratégico de pensar no modelo político que o país deverá seguir daqui para frente. Até onde sabemos, o Egito de 2012 em diante ainda é uma grande incógnita em quase todos os sentidos. Finalmente, o desenrolar da história egípcia nos promete muitas surpresas e devemos todos seguir com grande interesse a continuação da Revolução de Lótus.

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