Uma coisa eu garanto. Depois de ter ido àquela cidade duas vezes, posso garantir que tudo o que dizem do clima e das pessoas é bem aumentado. No verão, pelo menos, os dias são bem agradáveis. E os londrinos, sempre estão alegres e abertos para conversar.
Mas como estamos acompanhando pelos jornais, nem tudo é tão bonito assim. Todas essas manifestações que estão acontecendo desde o dia 06 de agosto refletem uma realidade desconhecida de parte da nova geração inglesa. As primeiras análises sobre os "protestos" ainda tentaram justificar a ação de marginais com um caso de suspeita de racismo por parte de dois policiais que assassinaram um jovem inglês durante um (ainda nada claro) tiroteio entre a polícia e uma gangue. Esse jovem era Mark Duggan, 29, negro. Agora, no entanto, já se entende este caso apenas como a gota d'água; e se fala numa questão muito mais complexa e estrutural da sociedade daquele país.
É só parar e analisar direito os fatos. O alvo dos jovens descontrolados não está sendo nem o governo nem estruturas dotadas de algum simbolismo; e sim qualquer tipo de negócio pelas ruas - literalmente o que estiver pelo caminho. O movimento não é político; os jovens estão loucos por mais riquezas materiais. Eles querem novos pares de tênis; novos computadores! Está claro que há um grande descontrole e agressividade em parte da juventude inglesa... E as causas, e neste ponto estou escrevendo sob forte influência de Brendan O'Neill (um jornalista do periódico australiano "The Australian"), podem ser principalmente os problemas familiares, o pouco senso de comunidade e também a dependência do Estado do Bem-Estar social. O grande lançe é que tudo isso está interligado!
Em rápidas linhas, vou tentar explicar a situação:
Na maioria das sociedades ocidentais contemporâneas, pode-se observar um certo padrão de comportamento no que diz respeito à (des)estrutura familiar. Em sociedades mais ricas, os problemas relacionados à frequência de divórcios e filhos fora do casamento tendem a crescer, inclusive. Como se não bastasse, estudos apontam que esse tipo de problema agrava ainda outras questões, como por exemplo a formação de gangues, o uso de drogas, o alcoolismo, os casos de gravidez na adolescência, etc, etc...
No entanto, nos países ricos os governos ajudam muitos mais os seus cidadãos necessitados que os países que têm menos recursos. No norte da Europa, por exemplo, o Estado banca creches públicas por período integral todos os dias para incentivar as mulheres a trabalhar e ganharem um salário; aos desempregados, o governo paga um salário bem razoável por algum tempo na esperança de que logo aquela pessoa consiga um bom emprego. Oras, até os estudantes chegam a receber uma "ajuda de custo" para estudar fora do país duranta a universidade (pelo programa ERASMUS)...
Em todo caso, também vale lembrar que nem sempre é bom para o desenvolvimento de uma sociedade que as pessoas estejam o tempo todo cerceadas pelo Estado. Segundo esses "teóricos", não é positivo que o Estado se meta tanto na vida dos seus cidadãos, alineando-os de tomar suas próprias decisões. Chegou-se na Inglaterra de hoje a um ponto onde os programas sociais criaram uma situação irreversível e muito negativa.
Fala-se então da possibilidade desses investimentos no Estado do Bem-Estar Social ter tirado da população jovem e mais carente a sensação de pertencer às comunidades onde estão vivendo. Isto seria causado pela desigualdade social que se pode ver em certos bairros de Londres e pelo fato dessa parcela da população ter sido criada pelos "agentes do Bem-Estar Social". Tottenham, tido como o bairro mais multicutural da Europa e um grande alvo de programas sociais do governo, foi justamente onde toda essa onda de violência eclodiu. Claramente o fato de não se sentirem parte daqueles lugares faz com que as pessoas não pensem duas vezes antes de sair destruindo tudo pela frente.
Desta vez, o incentivo principal para a população sair à rua foi a decisão do governo de fazer grandes cortes orçamentários (incluindo setores como saúde e educação). Tottenham, mais especificamente, sofreu um corte de 75% da verba. É de se destacar que este é um bairro cuja metade da população é composta por imigrantes humildes de 113 etnias diferentes, que falam 193 idiomas diferentes, e não possuem um bom nível de formação acadêmica ou profissional.
Mas espera. Então o que se ve, no fundo, é mais um tipo de problema relacionado à imigração em outro país europeu. Desta vez, no entanto, com certas singularidades para o caso inglês.
-Primeiro, o Reino Unido, além da ser uma ilha, não faz parte do Tratado de Schengen. Isto significa que a Inglaterra pode ter um controle maior sobre quem entra e quem sai do seu território.
-Segundo, o problema não é tanto em relação à falta de integração social entre integrantes de etnias distintas; mas à tentativa por parte do Estado de direcionar como essa integração deveria acontecer.
-E ainda terceiro, a busca pela maneira de lidar com as primeiras gerações de filhos de imigrantes nascidos em ambientes altamente diversificados culturalmente, muitas vezes sem ter uma família bem estruturada e sendo praticamente criadas impessoalmente pelo Estado.
O que fazer para reverter isto? A meu ver, sinceramente, a solução para ontem é arrumar um jeito de acabar com esse vandalismo o mais rápido possível. Depois, e acredito que isso é algo que já deve estar em fase de elaboração, é repensar a noção de como implantar nas pessoas o sentimento de solidariedade social e de identidade comunitária. Em todo caso, por enquanto é necessário analisar que essa violência atual está atingindo uma parte indefesa da população e que essas partes mais pobres da cidade estão se auto-destruindo.
Se esse comportamento continuar, o problema só tende a se agravar. E nem vale a pena eu me estender para a preocupação com a proximidade dos Jogos Olímpicos, etc, etc...
Talvez para um prazo mais curto, o sistema prisional inglês possa ensinar algo aos que agora estão tão descontrolados. A realidade é que o governo tem que fazer algo, e fazer rápido! Não é que eu defenda a violência; mas violência é o que eles estão fazendo com os que vivem ou simplesmente estão temporariamente naquela cidade cheia de vida, cultura e civilidade.
*textos que valem a pena ler e que me ajudaram a escrever esse texto:
-http://www.theaustralian.com.au/news/opinion/less-political-rebellion-more-mollycoddled-mob/story-e6frg6zo-1226111939883
-http://www.thefirstpost.co.uk/82918,news-comment,news-politics,uk-riots-is-liberal-society-to-blame

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