Para muitos críticos das potências europeias, nesse início de quedas de regimes, com tantas versões de fatos e informações difusas, é inevitável que o ocidente "não mostre os dentes" e "tente correr para buscar o osso" no deserto africano. Hoje podemos identificar mais uma vez na história uma tentativa de (neo)recolonização da África.
Relembrando da segunda metade do século passado, quando os povos africanos conseguiram finalmente expulsar os governos europeus dos seus territórios, pôde-se experimentar um contato até então inédito de cooperação militar que geraria dependência econômica. Acabadas as guerras, os países sofreram uma invasão empresas estrangeiras e quase que literalmente viraram suas “reféns”.
Naquela época, os EUA e a URSS "brigavam" disfarçados em várias frentes por todos os cantos do mundo para garantir para si uma maior área de influência em relação ao outro. Neste período, a França, a Inglaterra e a Itália eram os colonizadores, ou em outras palavras, os regimes demonizados que levavam os recursos naturais africanos para os seus próprios países, desviando-os da utilização em benefício dos próprios africanos.
Alguma semelhança com a realidade da segunda década dos anos 2000? Provavelmente mais do que qualquer um que tenha apreço pela África gostaria.
Na Líbia, recentemente, temos visto um processo que gera naturalmente em cada pessoa tanto alegria e esperança como preocupação e calafrios. Diante de um levante importânte de parte da sociedad líbia no início do ano, viu-se a oportunidade de “promover a democracia e a liberdade daquele povo já oprimido há 42 anos”. Os países da linha de frente dos valores ocidentais (França, Reino Unido e EUA) se uniram e conseguiram com algum esforço convencer a comunidade internacional da importância de uma atuação em prol dos milhares de civis que estavam em perigo. O inimigo dessa vez era um ditador que personifica o seu regime, tradicional pan-arabista, com forte ideologia antiamericana e que "tomava para si" 79% de toda a receita do petróleo gerado em território líbio. Nem é preciso entrar no mérito de quais países formam a OTAN, correto? França, Reino Unido, EUA, Itália, etc...
O desdobramento:
Desde fevereiro, realmente a luta foi dura: muitas pessoas morreram, mais pessoas ainda se feriram e praticamente todos os habitantes daquele país foram afetados de alguma forma pela revolução que está acontecendo. Somente em agosto os rebeldes chegaram a capital Trípoli e deram início ao que eles consideram o final da guerra. Segundo analistas, no entanto, a atuação da OTAN foi intervencionista demais; "uma verdadeira virada de jogo". Segundo esses mesmos analistas, os rebeldes jamais poderiam pensar em conquistar 95% do território da Líbia sem a colaboração militar por céu (e secretamente também por terra) da aliança militar ocidental, o que representa uma ameaça no período pós intervenção ocidental.
Acontece que, assim como o apoio militar e estratégico das potências dominantes da Guerra Fria não foi de graça; o apoio da OTAN no primeiro semestre de 2011 tampouco será.
Segundo um próprio executivo da Arabian Gulf Oil Company (AGOCO), hoje administrada pelos rebeldes, os que mais se envolveram na luta contra Kadhafi com certeza deverão ser devidamente "homenageados" pelo próximo governo. Não demora muito e veremos todas as grandes companhias norte-americanas e europeias bombando petróleo mais vigorosamente do que nunca nos poços líbios... E que bela saída para a falta de dinheiro de alguns países europeus!
Resultado, em pleno dia 22 de agosto, sem mesmo que Kadhafi tenha sido encontrado ou que a batalha em Trípoli tenha acabado, os periódicos europeus já começam a fazer uma verdadeira guerra de manchetes para disputar qual foi o país mais relevante para a queda do "regime da revolução verde". Quem ficará com mais poços? Isso não nos lembra um pouco o Congresso de Berlim, quando houve a "partilha da áfrica entre as potencias europeias"?
*Le Figaro => A aposta acertada de Nicolas Sarkozy na Líbia ("Le pari gagné de Nicolas Sarkozy en Libye") 22.08.2011
*The Thelegraph => Líbia : a participação secreta do Reino Unido criando caminhos para a queda de Trípoli ("Libya: secret role played by Britain creating path to the fall of Tripoli") 22.08.2011

A crise econômica que está assombrando o mundo desde 2008 e que vem se arrastando até hoje ,só fomenta mais e mais essa disputa por influência no território líbio . Cada dia que passa , cada oscilação do mercado é mais um estimulo para que cada região de influência na líbia valorize-se ainda mais.
ResponderExcluiradorei seu post joão.
ResponderExcluirSou pessimista de outra forma quanto ao futuro do mundo árabe recém saído da "Revolução". Até acredito que potências ocidentais possam tirar vantagem, mas não demorará muito para o fundamentalismo islâmico dar as caras. Não há escapatória para essas regiões tradicionalmente ditatorais, seja pelo governo de um déspota, seja por um governo religioso...
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