sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O Brasil e o Conselho de Segurança



Desde os problemas dos EUA com o Irã, o Brasil teve uma excelente oportunidade de aprofundar os seus laços com alguns países árabes. Ao invés de apoiar medidas radicais e agressivas propostas pelos EUA e pela Inglaterra, o Brasil procurou parceiros locais e não teve medo de ser uma voz dissonante no ocidente.

Mesmo sendo incontestavelmente fiel aos princípios liberais e democratas, foi também fiel à importância de ser chegar a medidas multilaterais e diplomáticas. Eu, pessoalmente, não poderia apoiar mais as decisões que vêm sendo tomadas pelo governo brasileiro na ONU.

Por outro lado, é público e notório que o Brasil tem objetivos maiores no Conselho de Segurança. Todos sabem que a nossa intenção é conseguir um assento permanente de ter o reconhecimento de praticamente todo o hemisfério para falar em nome dos países mais pobres. O Brasil não sonha pequeno; e se querem saber mesmo, nem deveria. Aliás, sonhar pequeno nunca fez parte do nosso dicionário Diplomático.

Como o Fareed Zakaria (editor da revista TIMES) afirmou numa entrevista ao programa Milênio*, o Brasil terá no futuro a capacidade, como nenhum outro país no mundo, de integrar o resto dos emergentes ao sistema internacional ocidental. No entanto, ao contrário do que ele afirmou nesse mesma ocasião, não acredito que para nos firmarmos como referência, tenhamos que “escolher um dos lados”; ou adotar apenas uma única visão de mundo. Isto é, por lados estou me referindo à noção de “mundo ocidental” e de “resto do mundo”.

Ao contrário, como já aconteceu no início da década de 1960, o Brasil não precisa ter uma diplomacia cheia de compromissos e preocupações pré-estabelecidas que no final só servem para limitar as nossas possibilidades no campo diplomático. Precisa, sim, usar todo a sua tradição pacifista, legalista e humanista para tentar trazer, sempre, cada vez mais atores “ao jogo”.

Como se sabe, recentemente o Brasil apoiou o programa nuclear (pacífico) iraniano; mas em nenhum momento deixou de afirmar a sua defesa pelos Direitos Humanos e pela paz no Oriente Médio. Igualmente, o Brasil não apoiou a participação da OTAN na Líbia e não hesitou em se mostrar contrário aos ataques à população líbia. No início desse ano, o Brasil não teve uma posição definida sobre os movimentos populares no Egito, mas saudou o desejo do povo egípcio por mudanças internas. E agora, nesta semana, quanto à Síria, o governo brasileiro se mostrou contra a repressão do regime de Assad, mas ao mesmo tempo não quis gastar um voto que poderia sujar a sua imagem de neutralidade no oriente médio.

A Síria sempre foi, tradicionalmente, um dos principais aliados do Líbano, haja visto a posição deste país também na mesma votação. E para quem não sabe, o Líbano talvez será o nosso próximo foco de aproximação no Oriente Médio. A África do Sul, que tem sido uma grande parceira diplomática do Brasil desde o início do ano, também preferiu abster-se nessa última votação. Agora, o que essa escolha quis dizer? No meu ponto de vista, abstenção não significa o mesmo que oposição; mas apenas um apoio parcial, mais subjetivo.

Olhando friamente, não consigo de jeito nenhum defender um regime como o sírio. Mas ao mesmo tempo, quantas vezes na história recente os EUA não tiveram uma leitura equivocada dos fatos? E quantas vezes na história recente não se ignoraram a limites de soberania em prol de interesses mais obscuros?

De qualquer forma, a pergunta que pode vir à tona para a maioria das pessoas é: se o Brasil prefere “se abster” quase sempre, o que ele tanto quer fazer no Conselho de Segurança?

E a resposta, em minha opinião, é que o Brasil quer ocupar um espaço de destaque nos fóruns internacionais e se fixar como grande potência hemisférica. Tenho a certeza de que o Brasil enfatizaria a defesa pelas medidas menos radicais de resolução de conflito... E além disso, talvez o Brasil pudesse também mostrar que nem sempre se precisa de grandes armas para se chegar a grandes resoluções. Ao contrário, o Brasil poderia mostrar que há vezes em que o “Soft Power” tem um efeito muito mais desejado. E esse tipo de poder, que não é exatamente aquele defendido pelo realismo tradicional, está bastante em alta hoje e diz respeito também à moral que um Estado tem para defender certa política.

Agora, falando honestamente, quem hoje em dia confiaria nos EUA ou na Inglaterra sozinhos para definir uma questão de paz no Oriente Médio, por exemplo? Ou mesmo no tal Quarteto para o Oriente Médio (totalmente liberal-democrata)?

Não estou nem dizendo que os EUA ou que a Inglaterra devam deixar de ser considerados nas grandes negociações. Na verdade, estou até certo de que países com tamanhos pesos econômicos e militares têm muito a ajudar (até no sentido de que muitas vezes conferem mais legitimidade às negociações). No entanto, o que defendo também é a inclusão de novos atores nas questões de High Politics. Afinal, também, se nada deu certo até agora, por que não tentar “uma receita” diferente?

Só para concluir e deixar mais algumas questões também pertinentes; enquanto o Brasil luta por mais espaço no campo diplomático, também é bom deixar claro que não é somos país insignificante militarmente. Por mais que tenhamos uma história de relativa paz interna e que defendamos o mesmo para todos os outros países; também tivemos participação em diversos conflitos internacionais. O Brasil é atualmente, para quem não sabe, um dos principais produtores de armas de pequeno porte do mundo! Estamos ano a ano aumentando os nossos investimentos em revitalização das nossas FF.AA.

A única diferença, realmente, é que jamais entramos sozinhos numa guerra. Sempre, por um motivo ou por outro, o Brasil prezou pela multilateralidade e pela cooperação internacional. Historicamente, participamos da guerra do Paraguai em conjunto com a Argentina e com o Uruguai. Entramos na II Guerra Mundial com a nossa localização geográfica e com uma força expedicionária. Já mandamos bastante militares para países da América Latina, da África, da Europa, e do Oriente Médio pela ONU. Mais recentemente pacificamos o Haiti (MINUSTAH); e ainda na semana passada acertamos de mandar mais 300 soldados e uma Fragata para ajudar a patrulhar as águas libanesas (UNIFIL). E por aí segue a nossa história de cooperação e envolvimento com questões de segurança


*A entrevista do Fareed Zakaria para a globo News pode ser assistida integralmente em: http://g1.globo.com/videos/globo-news/milenio/

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