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| foto à esquerda tirada da revista VEJA e foto à direita tirada do El País |
Gostaria agora de fazer uma análise bem interessante sobre esses movimentos sociais que vem acontecendo desde maio. Isto é, não estou me referindo às revoltas árabes por liberdades e democracia, mas as recentes revoltas ocidentais contra a selvageria do capitalismo e contra a atual divisão de poderes na democracia participativa.
Se bem repararam, no parágrafo anterior eu disse que a análise ia ser interessante. Peço desculpas se isso pereceu arrogante de minha parte. De qualquer forma, eu acabei de encontrar na internet uma fonte filosófica forte o bastante que respalda tudo aquilo que eu vinha pensando há algum tempo. E esta fonte não é ninguém menos que o ativo filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman.
Segundo ele, a “modernidade é líquida”. E fazendo parte dessa modernidade, esses movimentos dos indignados também são. Mas o que significa isso? Resumidamente, poderíamos simplesmente dizer que tudo isso é instável demais, ou demais pelo menos para representar uma mudança séria a curto prazo.
No que as manifestações espalhadas pela Europa e agora pelos Estados Unidos estão pautadas?
1- Todas discordam da atual organização do sistema financeiro mundial, que beneficia primeiramente aos bancos.
2- Todas pedem por uma maior participação do povo nas decisões políticas.
3- Todas têm por princípio a horizontalidade, ou seja, a falta de um líder ou de um grupo de líderes para falar pelo todo.
4- Todas contam com uma forte participação de jovens qualificados, porém desempregados.
5- E finalmente, todas querem com tudo isso promover a criação de mais empregos e maiores salários.
Ao mesmo tempo, esses mesmo grupos apresentam um mesmo defeito: sabem o que não querem, mas não têm a menor noção do que é estão perseguindo. Oras, clamar por "mudança" não é o suficiente. Os manifestantes fazem coro renegando o sistema que está em vigor; mas ao mesmo tempo também não chegam a nenhuma conclusão sobre o tipo de sistema que gostariam de ter.
Bom, mas o inverno vem aí. Logo, logo, os manifestantes terão de suportar temperaturas abaixo de 0 grau em alguns lugares. Certamente não vão aguentar ficar em barracas no meio da rua. Se não acharem uma nova forma de se organizar, esse movimento quasi-anarquista tende ao mesmo fracasso que tiveram os movimentos similares dos dois últimos séculos. Sem um líder ou um grupo de líderes, no meu ponto de vista, nenhuma mudança prática ocorrerá. Ou ainda mais importante, sem conseguir formular novas ideias (propositivas), não pode haver nenhum fim positivo.
Se eu pudesse dar a minha humilde opinião, por que não formar um novo partido? Seria ótimo! Imaginem 99% da população unida a um só partido com um ideal apoiado por todos. Qual seria o candidato desse partido que não ganharia? Aí, então, qualquer mudança seria facilmente alcançada. Esse partido teria uma maioria absurda em qualquer parlamento.... Mesmo se quisessem refazer todo o pacto social, estamos falando de 99% da população unida! E, claro, esse partido, para ser enquadrado nesse movimento dos indignados, teria de ser membro de uma grande rede internacional. Está aí, e essa nova rede internacional teria o papel de coordenar as mudanças domésticas de cada país e tomas os cuidados necessários para não reproduzirem as assimetrias de poder do mundo de hoje.
Na verdade eu não sei o que poderia surgir. Talvez nem mesmo um partido para entrar no atual jogo político, que já é sujo demais e talvez irreversivelmente corrupto; mas um grupo acadêmico e sério que possa influenciar mudanças reais e sentidas da prática... Segundo Zygmunt, a política vai ter que passar por uma etapa de transformação. Para ele, a ineficiência dos políticos de hoje pode ser explicada pelo descompasso entre política e economia. Isto é, enquanto a economia tem forças globais; a política tem forças apenas nacionais. E essa globalização assimétrica, então, acaba tomando as formas de um perigoso monstro... A resposta pode estar em novas formas de governança global, talvez como eu tenha falado no parágrafo anterior... Estamos preparados?
Enfim, mas os manifestantes rejeitariam a minha ideia. Provavelmente também rejeitariam o insight de Zygmunt. Eles são apolíticos. E qual é a contrapartida? Sentar em praças simbólicas, clamar por mudanças e esperar que algo seja feito pelos atuais governantes. Pelo menos, até onde eu sei, é isto que vem acontecendo até agora.
Infelizmente, ao invés de ser bem aproveitada e gerar resultados; essa nova onda de ativismo corre o risco de cair no esquecimento total. Via este blog, então, eu faço o meu protesto:
Não concordo com a nossa realidade e gostaria de ver uma maior organização nos/entre os Movimentos "Revolucionários"!
Vamos levar essa revolução adiante! Que tal começar com o compromisso de votar melhor nas próximas eleições? Que tal dedicar mais atenção também ao poder legislativo - ao invés de focar esforços só na poder executivo? Que tal não desperdiçar o nosso voto com Tiriricas e Popós para que gente séria possa ser eleita?
"A emoção é instável e inadequada para definir alguma coisa coerente e duradoura". De fato, a modernidade líquida dentro da qual estão inscritos os Indignados possui como caracteristica a temporalidade, "as manifestações são episódicas e propensas à hibernação." (Jornal El País, "El 15-M es emocional, le falta pensamiento", publicado no dia 17 de outubro de 2011)

"Vamos levar essa revolução adiante! Que tal começar com o compromisso de votar melhor nas próximas eleições? Que tal dedicar mais atenção também ao poder legislativo - ao invés de focar esforços só na poder executivo? Que tal não desperdiçar o nosso voto com Tiriricas e Popós para que gente séria possa ser eleita?"
ResponderExcluirNada disso adianta. Não existe votar melhor, porque não se vota em pessoas se vota em partidos políticos.
Vá em http://porquezeitgeist.wordpress.com/documentarios/ e assista o primeiro documentário, lá estão todos os argumentos que mostram que o que você propões no seu artigo é quase certo de não funcionar e o porque.
Sobre alternativas pro sistema capitalista, sim ela existe, chama-se economia baseada em recursos vide http://movimentozeitgeist.com.br/economiabaseadaemrecursos que já é estudada e desenvolvida há décadas por centenas de grupos ao redor do mundo, com MUITO material escrito sobre a mesma. Qualquer dúvida, só perguntar.
BTW, muito bem escrito o artigo apesar das minhas discordâncias. Teve algo que você não citou, o protesto começou sem proposta, é verdade porém a proposta é exatamente discutir em assembléias um novo modelo de sistema economico-social.
Para que nossos esforços não entrem em hibernação, que tal aparecer na cinelândia no sábado (22/10) pra tentarmos alguma coisa?
ResponderExcluirO artigo ficou legal. Essas opiniões gerariam uma boa discussão.
Abraços
Hector
Ao mesmo tempo, esses mesmo grupos apresentam um mesmo defeito: sabem o que não querem, mas não têm a menor noção do que é estão perseguindo.
ResponderExcluirjulgo por essa frase, me corrija se eu estiver errado, que você não vem acompanhando nenhum discurso que foi feito pelo OWS. Aconselho começar pelo de Naomi Klein(http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/10/occupy-wall-street-o-movimento-mais.html) pois ela explica o porque da importância desses eventos, e porque ela considera isso a coisa mais importante que está acontecendo no mundo. Tampouco deve conhecer a filosofia do Anonymous(http://www.whatis-theplan.org) que é justamente o que une todos. O capitalismo está visivelmente se consumindo as custas de vidas humanas e de recursos naturais. Gerando crises economicas onde os responsáveis(bancos e grandes corporações) nunca são punidos ao inves disso voltam da crise ilesos como se nada tivesse acontecido e quem paga por isso é o povo. Cada vez mais dinheiro está nas mãos de menos gente. A idéia geral do movimento é que nos organizemos no mundo inteiro, cada um pelos seus motivos, mas com um ideal em comum. O fim do capitalismo e da falsa democracia, e uma democracia horizontal, como deve ser. Nos reunindo e fazendo essa troca de idéias é que vamos incomodar e tornar possivel o surgimento de um novo sistema. Liberdade de expressão, pensamento e que cada individuo possa ter o controle da sua vida e fazer dela o que bem entender, desde que sem prejudicar o proximo. Nos livrar dessa rotina a qual somos presos para poder sobreviver. Trabalhar juntos por um mundo melhor. UNIDOS COMO 1 E DIVIDIDOS POR 0. A REVOLUÇÃO COMEÇOU.
Não sei se você pegou o espirito envolvido no movimento, entende o que é mais ainda não tem visão das mudanças nas construções das micro-relações de poder que ele se propõe. Acho que não cabe a construção de um partido, não é a idéia disputar a política partidária representativa, mas sim reconstruir a sociedade de modo a permitir que a democracia seja realmente a manifestação de vontade da população como um todo. O processo por isso mesmo deve ser horizontal desde a sua construção, pois não podemos querer construir uma sociedade com democracia real se não a aplicamos na nossa própria organização. Apareça no sabado, o espaço será aberto a discussão, pense conosco a sociedade.
ResponderExcluirMouse, obrigado pelo comentário. Em todo caso, que tal nós colocarmos pessoas lá dentro para promover uma mudança na lei eleitoral? Digo isso pq se os protestantes são 99% da população, acho difícil a gente não conseguir fazer algumas alterações no sistema via instituições já criadas por ele próprio, que, aliás, são bem democráticas. Na verdade, acho do fundo do coração que quem estraga as nossas instituições é a gente, 99% da população, quando não sabe votar e colocar qualquer um lá "para nos representar".
ResponderExcluirHector, obrigado. Talvez eu apareça sim lá no sábado.
Anônimos, se essa horizontalidade é incontornável, como nos organizaremos depois? Quem vai organizar a turma quando conseguirmos o que queremos? Hoje em dia não é todo mundo que pode se dedicar à política... As assembleias podem, sim, ser uma ótima ideia e realmente funcionam muito bem em alguns lugares onde elas existem. Mesmo assim, é preciso que depois alguém receba mais poderes e tome a frente de parte disso! As micro assembleias (ruas, bairros e zonas) precisam também de macro assembleias (cidades, estados e país); e aí como tudo vai funcionar depois? Na verdade ainda não ficou muito claro para mim e esse é justamente o meu questionamento... Aliás, isso não ficou claro para mim e acho que posso dizer que também nao ficou claro para muitos outros...
Obrigado pelos comentários, pessoal! Gostaria que mais revolucionários fizessem o mesmo e participassem da discussão... =D
Recomendo fortemente http://porquezeitgeist.wordpress.com/documentarios
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