sábado, 20 de agosto de 2011

Diplomacia Companheira?

Neste post vou comentar um artigo de opinião que saiu no jornal O Globo neste sábado, dia 20 de agosto de 2011. Não pretendo defender ninguém; apenas entender a lógica diplomática brasileira neste momento e reproduzi-la em palavras.



Ao contrário do que muitos pensam, o Brasil não está necessariamente buscando a amizade dos países árabes. Os votos "estranhos" do Brasil no CS que para muitos acabam favorecendo regimes autoritários suspeitos de crimes graves contra os direitos humanos e até contra a humanidade têm sim uma razão de ser.

Na verdade, esses votos são até bem tradicionais da nossa diplomacia (e defensivos). Para quem não sabe, o Brasil vem defendendo o direito internacional e o pacifismo como princípios das relações internacionais desde o emblemático Barão do Rio Branco, nos primeiros anos do século XX. Reconhecendo a inferioridade militar brazuca em relação aos outros grande países, o Brasil nunca pôde se dar ao luxo de defender intervenções militares por aí e outras medidas consideradas radicais ou agressivas demais. Brasil não pode pensar só no agora ou num espaço de 5 anos; têm que pensar como Estado, usando medidas década ou até gerações. Além disso, deve considerar que tudo aquilo que a gente defende para os outros certamente um dia pode ser usado contra nós mesmos.

Ao sermos perguntados se conseguimos enxergar a possibilidade do Brasil entrar em conflito interno ou com algum outro país do mundo num futuro próximo, a resposta tende a ser bem fácil: NÃO! No entanto, como eu já lembrei no primeiro parágrafo, o Brasil tem que pensar além desse ano e até dessa geração. E aí está parte da dificuldade de nós, pessoas normais, em entendermos a lógica da diplomacia brasileira.

Imaginem uma situação assim em 2045:

Manchete do New York Times... "Brazil doesn't respect the limits of the Amazon and puts the whole world in DANGER".  Estou sim falando da Amazônia. Primeiro porque somos sensíveis a este assunto e segundo por que eu gosto do fato dela ser nossa. Imaginem que esta situação "hipotética" seja resultado justamente do - novo - código florestal, que é bem mais permissivo que o antigo. E aceitem que, tendo sido aprovado no congresso nacional, passou com o apoio de toda a nossa população.

Vou além: imaginem que o Conselho de Segurança considere que esta seja uma questão de segurança internacional (o que é bastante possível) e resolva mediar essa situação. Então todas as principais potências vem tentar convencer o Brasil a mudar a sua postura rápido. Imaginem ainda que todas as potências resolvam ameaçar o nosso país com uma série de medidas de várias naturezas. Ao final de seis meses de negociações sem sucesso, os EUA chegam com toda a sua autoridade militar, propõem colocar agentes militares internacionais na floresta para garantir que nenhuma árvore a mais seja derrubada e de quebra ainda propões o replantio de 80% da área florestal ( considerando os seus moldes em 1960).

O mundo inteiro aplaudiria! O mundo ganharia mais florestas, a qualidade do ar estaria melhor e ninguém na Europa ou nos EUA teria que fazer grandes esforços. No entanto, no Brasil teríamos a nossa soberania legalmente desrespeitada (já que com permissão do CS), estaríamos acabados perante a comunidade internacional e arruinados economicamente.

Não é a mesma coisa que 2011, tudo bem. Mas podemos todos enxergar pontos em comum. Na minha opinião, os líderes autoritários árabes que realmente estão investindo contra seus cidadãos devem mesmo ser retirados do poder. Acho sim que as mortes de inocentes devem parar imediatamente; mas também acho que seria muita irresponsabilidade tomar uma decisão tão drástica como uma intervenção militar sem analisar in loco a situação, estudando o que os protestantes querem e conhecendo quem entraria no poder no lugar de Assad, no caso da Síria, por exemplo.

A questão é complicada, mas Estados também não podem ser idealistas o tempo todo. Conflitos fazem parte da história mundial desde antes do homem começar a andar, e de alguma forma ajudaram boa parte dos países a se estabilizarem e encontrarem um caminho de prosperidade. Pessoas não pensam como Estado, e é normal que seja assim. Mas nem sempre é possível que o Estado ceda às pressões populares e baseie suas ações em emoções e visando apenas o curto prazo.

Ao contrário do que a maioria dos países ocidentais pensam, nem todas as populações do planeta almejam mais liberdades individuais; a democracia está longe de ser um valor universal. Quem garante que o próximo regime não será tão corruto quanto o antigo? Há a possibilidade dessas revoltas terem incentivos religiosos obscuros e/ou levarem a situação por lá para um ponto muito mais feio... Sei lá, há uma série de fatores por trás que ainda não foram devidamente estudados...

Vale lembrar também que esses conflitos estão longe de terem as mesmas razões das guerras civis e dos massacres africanos que aconteceram durante a guerra fria. Historicamente, os povos do norte da África são muito mais desenvolvidos e integrados entre si do que os povos da África Subsariana. Haja visto terem uma mesma religião, um histórico incrível e antiquíssimo de trocas comerciais e migrações internas, dentre vários outros aspectos herdados desde o Império Ottomano.

Além disso, vale lembrar também que a maioria dos conflitos que acontecem hoje em dia na África tem raízes nas influencias ocidentais do século passado. Será que vale a pena influenciarmos ainda mais, DE NOVO?

E sobre os protestos desse ano que já levaram à queda de regimes... No Egito, Mubarak ainda não foi julgado e não há grandes sinais de mudanças a curto prazo; na Tunísia, já estão acontecendo outros levantes populares pela falta de mudanças feitas pelo novo regime...

Um comentário:

  1. Parabéns João! Excelente texto. De fato é uma questão que suscita debate. É verdade que os valores respeitados pelo Brasil como soberania, autodeterminação dos povos e pacifismo são emblemáticos e permeiam todas as nossas negociações, mas acima de todos os valores está a Carta da ONU, que em seu preâmbulo preza pelos direitos fundamentais do homem, pela força do ser cosmopolita, rompendo a visão tradicional realista. Carta que o Brasil, como país soberano, também ratificou! Questão complicada Joãozinho! Parabéns!

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